Criação selectiva, um mergulho na piscina genética

O que é Criação Selectiva? Na prática, não é mais do que criar por selecção. Seleccionar pai e mãe para que se obtenham os melhores exemplares possíveis, aquele que deve ser o objectivo de cada criador. No entanto, a criação selectiva encerra mais do que escolher os melhores exemplares nos progenitores. Por muito «bons» que sejam pai e mãe serão sempre diferentes na sua fisionomia (fenótipo) e é sobre isso que deve incidir esta selecção «artificial».

O criador deverá trabalhar para encaixar os seus exemplares num estalão (breed standard) , que evoluiu desde os primeiros tempos da raça. O bosques da noruega de 1970 não é o mesmo de 2011 e este não será certamente idêntico ao de 2051. Com a distância que é sempre necessária e com o direito de discordar do que dita a «moda», o criador tem esse desafio: aproximar os seus gatos do «senso comum», determinado pelo julgamento dos juízes e pelo organismo que representam (FIFe, TICA, WCF, CFA, etc, etc.).

Selecção de opostos vs. Selecção de semelhantes

A criação selectiva pode ser feita de duas formas. Ou o criador quer eliminar um defeito ou quer intensificar uma qualidade. No primeiro processo existe a criação por selecção de opostos, ou seja, eliminar o mau queixo da mãe numa ninhada não será certamente possível na totalidade, mas poderá ser atenuado se o pai o tiver forte e correcto. Ou seja, em parte conseguir-se-á eliminar esse mau queixo, escolhendo na geração futura apenas para criação os que forem mais próximos do padrão. No segundo caminho, existe a criação por selecção de semelhantes. Ou seja, um pai com características exemplares, mas com um ou duas menos boas é cruzado com uma mãe também fantástica, mas com «defeitos» semelhantes. Privilegiam-se as qualidades, desvalorizam-se os «defeitos». Imaginem uma cauda mais curta no pai e na mãe, mas tudo o resto «perfeito». As ninhadas terão o mesmo problema, mas não deixarão de ser excelentes.

O problema da criação por opostos é que os genes não são fixados apenas com um cruzamento,  e talvez não o sejam com dois ou três. O problema da criação por semelhantes é que não se elimina as más características, apenas se acentuam as boas. Goste-se mais de um ou de outro processo, parece claramente evidente que a longo prazo serão complementares.

Inbreeding e linebreeding

A selecção por semelhantes tem outra variante, vulgarmente chamada inbreeding. Ou seja, o cruzamento de parentes. O uso de consaguinidade, muitas vezes considerado um bicho-papão pelos criadores, é a forma mais eficaz de fixar genes e de conseguir a «criação verdadeira» («true breeding»), uma vez que aspira aos pares de genes homozigóticos, ou seja alelos sem mutação. Mas o inbreeding não é coisa que deva ser encarado com ânimo leve, uma vez que a fixação de coisas tem o seu lado B: a fixação de coisas más e até à sua potenciação. Se um determinado gene «mau» for recessivo e houver um acasalamento com uma fêmea com o mesmo gene recessivo, de repente podemos ter um problema sério ou um defeito visível.

Por tudo isto, o inbreeding deve ser feito apenas por criadores experientes (implica anos e anos de criação, talvez décadas?) e que tenham a noção completa de todas as fragilidades das suas linhas, a fim de que consigam evitar a tal «depressão por consaguinidade» («inbreeding depression»). E com um objectivo claro, sustentado e justificado, de benefício para a raça, e não por acidente.

Existe a tese de que o linebreeding é mais seguro do que o inbreeding (os conceitos têm uma fronteira muito ténue), uma vez que não admite cruzamentos directos de iguais (irmãos, primos…), mas sim verticais, como avô-neta, tio-sobrinha, contudo o perigo continua lá. É fundamental manter o mesmo critério: conhecimento quase absoluto (e porque o absoluto não existe) da linha para evitar resultados negativos ou menos positivos.

Outcrossing e efeito do fundador

Tanto o inbreeding como o linebreeding constrangem a variedade genética, como é óbvio. Ao lado disto tudo temos o outcrossing, o acasalamento de não parentes. Ao mergulharmos no pedigree podemos, no entanto, encontrar um fundador comum e uma característica em comum, que vem daí. Isso chama-se «efeito do fundador». No caso dos bosques da noruega, o exemplo da ponta branca na cauda ganhou o nome de «Polaris tip», precisamente porque se trata de uma característica que vem do Pan’s Polaris, um dos pilares da raça.

O criador luta pela preservação da raça. Não se arma em Deus quando decide escolher o melhor cruzamento para cada gato. Apenas usa o seu leque de conhecimentos no sentido de ter exemplares cada vez mais saudáveis, mais fortes e mais bonitos, lutando também para que a selecção não leve a casos extremos e que, por isso, coloque tudo em causa. O livre-arbítrio, que existe na natureza, permitiria sempre uma disparidade de qualidade e de fisionomia tão grandes que colocariam em causa da uniformidade e existência da mesma. Ao seleccionarmos, se o fizermos com conhecimento e não porque não há outra hipótese, estamos a ajudá-los a subsistir entre nós, no auge da sua beleza. Nós que tanto fazemos, tantas vezes, pela extinção de tantas espécies.

 © Luís Mateus & Ana Morais Soares

©Shadow Eyes – Bosques da Noruega


 

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~ por O bosque da noruega em 23/11/2011.

Uma resposta to “Criação selectiva, um mergulho na piscina genética”

  1. Olá! Eu e a minha mãe adoramos os vossos gatinhos Um beijinho para todos eles!!!

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